Mendonça vem à público e lança forte nota

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou nesta quarta-feira (2) que se encontrou com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, em março de 2025, antes de assumir a relatoria dos principais processos relacionados às investigações sobre a instituição financeira. A manifestação ocorreu após reportagens revelarem mensagens e áudios que indicavam uma articulação para aproximar Vorcaro do magistrado. Em nota oficial, o gabinete de Mendonça afirmou que houve apenas um encontro com o empresário, realizado por iniciativa do próprio Vorcaro, e que o ministro se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, Mendonça também recebeu um advogado ligado ao empresário e informou que os memoriais apresentados naquela ocasião permanecem registrados em seu gabinete. A confirmação acrescenta um novo elemento ao caso Master em um momento de intensa repercussão sobre os contatos mantidos por Vorcaro com integrantes das principais instituições de Brasília.
Segundo a versão apresentada pelo ministro, a reunião teve como tema exclusivamente a Suspensão de Tutela Provisória 976 (STP 976), processo que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master. Na data do encontro, o caso estava sob julgamento no Supremo, mas havia sido interrompido por um pedido de vista de outro integrante da Corte. Mendonça ressaltou ainda que Vorcaro buscou interlocução com outros ministros para tratar da mesma questão, prática que pode ocorrer quando partes ou advogados apresentam memoriais e argumentos relacionados a processos em tramitação. A nota procura estabelecer uma diferença clara entre aquela audiência e as investigações que posteriormente envolveriam o Banco Master. De acordo com o gabinete, o encontro ocorreu meses antes de Mendonça assumir a condução dos processos relacionados às suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
O ponto mais enfatizado na manifestação foi o resultado da atuação de Mendonça no processo discutido com Vorcaro. O ministro afirmou que sua posição jurisdicional foi contrária ao interesse defendido pelo empresário, citando os próprios autos como elemento verificável dessa afirmação. A declaração busca responder às interpretações provocadas pelas mensagens divulgadas nesta quarta-feira. Reportagens do UOL mostraram, por exemplo, que o advogado Ciro Soares enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça acompanhada da expressão “trabalhando por você”. Soares apareceu em outros trechos da investigação como intermediário de contatos entre Vorcaro e autoridades. Mendonça, porém, afirmou que não comenta diálogos privados mantidos entre terceiros e que não cabe a ele confirmar o significado dessas conversas. O ministro declarou que sua atuação pública e privada é orientada pelos princípios da legalidade e da impessoalidade.
As informações que antecederam a nota vieram de mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro e revelados inicialmente pelo ICL Notícias. O material descreve semanas de articulações para viabilizar uma aproximação entre o empresário e Mendonça, envolvendo interlocutores como Ciro Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira. A Folha de S.Paulo confirmou posteriormente que Mendonça recebeu Vorcaro em março de 2025 para discutir justamente os precatórios relacionados ao Banco Master. O fato de a reunião ter ocorrido fora do momento atual das investigações não elimina o interesse jornalístico sobre o contato, especialmente porque Mendonça hoje ocupa posição central na análise de procedimentos relacionados ao banco. Ao mesmo tempo, a existência do encontro não comprova, por si só, favorecimento ao empresário, razão pela qual o resultado concreto da atuação judicial mencionada pelo ministro se torna relevante para avaliar o episódio.
A revelação surge em uma semana particularmente delicada para o STF. Mendonça foi responsável por retirar o sigilo de documentos que revelaram mensagens atribuídas a Vorcaro envolvendo Alexandre de Moraes e outras autoridades, provocando uma crise interna na Corte. Paralelamente, ministros e integrantes da Polícia Federal passaram a questionar aspectos do procedimento adotado por Mendonça para solicitar relatórios sobre essas comunicações, enquanto a Procuradoria-Geral da República contestou juridicamente determinadas diligências. Agora, ao aparecer também em registros de interlocução com Vorcaro, o próprio relator passa a enfrentar questionamentos sobre a natureza e os limites daquele contato. A resposta divulgada pelo gabinete procura demonstrar que houve transparência documental, que o assunto discutido estava formalmente em julgamento e, principalmente, que a decisão adotada posteriormente não beneficiou a posição apresentada pelo empresário.
O episódio deve continuar produzindo repercussões porque o caso Banco Master passou a expor uma ampla rede de contatos mantida por Vorcaro no meio político, jurídico e empresarial. A nota de Mendonça esclarece pontos objetivos importantes: confirma um único encontro com Vorcaro, identifica o processo discutido, registra que também houve audiência com um advogado do empresário e sustenta que sua atuação jurisdicional terminou em sentido contrário ao interesse defendido pelo banco. Isso não encerra o debate sobre as mensagens divulgadas nem impede que novas informações sejam analisadas, mas fornece a versão oficial do ministro diante das revelações. Para uma avaliação responsável, será necessário confrontar o conteúdo integral das comunicações, os registros formais das audiências e as decisões existentes nos autos. Até o momento, não há comprovação pública de que Mendonça tenha adotado medida para beneficiar Vorcaro em consequência daquele encontro.


