Milei se afasta de ex-assessor e volta a atacar Lula

O presidente da Argentina, Javier Milei, comentou pela primeira vez a prisão de Fernando Cerimedo, consultor político que participou de sua campanha eleitoral em 2023 e atualmente é investigado na Bolívia por suspeita de envolvimento em uma tentativa de homicídio contra a própria companheira.
Durante entrevista à rádio Mitre, Milei procurou minimizar a ligação atual com Cerimedo e afirmou que o marqueteiro não integra mais seu grupo político. Segundo o presidente argentino, a relação entre os dois teria sido encerrada ainda em 2023, depois da campanha que levou o líder libertário à Presidência.
“Você sabe quantas pessoas se envolvem na política, indo e vindo o tempo todo. Cerimedo é alguém que não faz parte do grupo, não tem vínculo de nenhum tipo conosco. Nos desvinculamos em 2023”, declarou Milei.
As declarações ocorreram dias após Fernando Cerimedo ser preso na Bolívia. O argentino é acusado pelas autoridades locais de ter participado da articulação de uma tentativa de homicídio contra sua companheira, Nadia Beller, de 41 anos.
Segundo as informações divulgadas pelas autoridades bolivianas, o episódio ocorreu na noite de 17 de agosto, em um hotel localizado na cidade de Santa Cruz de la Sierra. A mulher teria sido atingida por disparos efetuados por dois homens e conseguiu sobreviver.
Cerimedo foi detido posteriormente em um aeroporto da cidade. A investigação aponta a suspeita de que ele pretendia deixar o país e teria coordenado a ação à distância, utilizando o telefone celular. A Justiça da Bolívia determinou, na última sexta-feira, a prisão preventiva do consultor por 180 dias.
Ao falar sobre o caso, porém, Milei também fez novas declarações sobre adversários políticos e voltou a mencionar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem apresentar provas, o argentino insinuou a existência de uma rede envolvendo políticos e movimentos de esquerda por trás do processo contra seu antigo assessor.
Segundo Milei, haveria uma suposta conexão entre a deputada argentina Marcela Pagano, o empresário Franco Bindi, o ex-presidente boliviano Evo Morales, movimentos ligados ao chamado castro-chavismo e o governo brasileiro.
“Tudo faz parte da mesma rede”, afirmou o presidente argentino, sem detalhar quais elementos sustentariam a acusação.
Na mesma entrevista, Milei voltou a citar Lula ao comentar a repercussão de uma notícia envolvendo a suposta comercialização de carne de burro na Argentina. O presidente classificou a informação como falsa e atribuiu sua divulgação, novamente sem apresentar evidências, a um brasileiro que, segundo ele, faria parte da equipe do presidente brasileiro.
Milei afirmou que a história teria sido impulsionada por “um estudante de publicidade” brasileiro que estaria atuando na Argentina. A declaração ocorre em meio a uma relação marcada por divergências públicas entre os governos dos dois países.
No Brasil, Fernando Cerimedo tornou-se conhecido principalmente depois das eleições presidenciais de 2022. O argentino realizou transmissões nas redes sociais nas quais divulgou alegações sobre o sistema eleitoral brasileiro e afirmou possuir documentos que, segundo ele, comprovariam irregularidades no processo.
As declarações foram repercutidas por apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro, que havia sido derrotado no segundo turno das eleições. O conteúdo também foi citado por integrantes das Forças Armadas durante o período de questionamentos sobre o resultado eleitoral.
O caso acabou entrando no radar das investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre os acontecimentos que culminaram na tentativa de ruptura institucional. Cerimedo foi indiciado durante o inquérito, mas posteriormente não foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República.
A avaliação da PGR foi de que as investigações não haviam esclarecido de forma suficiente se o consultor argentino tinha atuado de maneira coordenada com o grupo investigado ou se suas ações tinham como principal objetivo ampliar o alcance de seus conteúdos nas redes sociais.
Mesmo após o encerramento daquele episódio, Cerimedo continuou aparecendo em debates políticos relacionados ao Brasil. Em julho deste ano, ele voltou a fazer declarações críticas ao sistema eleitoral brasileiro durante uma transmissão ao vivo com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Agora, a prisão do antigo consultor na Bolívia volta a colocar seu nome no centro do debate político regional. Enquanto as autoridades bolivianas mantêm as investigações sobre o caso, Milei tenta estabelecer uma distância pública entre seu governo e Cerimedo, ao mesmo tempo em que utiliza a entrevista para lançar novas acusações contra adversários políticos, incluindo Lula, sem apresentar provas que sustentem as alegações.



