Casas Bahia entra em recuperação judicial após prejuízo bilionário e fechamento de lojas

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo diante do agravamento de sua situação financeira. A companhia informou passivos de R$ 17,3 bilhões e iniciou uma ampla reestruturação de suas operações, que inclui o fechamento de 298 lojas e uma redução significativa do quadro de funcionários. A medida ocorre após a divulgação de um prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026.
O pedido foi protocolado no domingo (16), na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A iniciativa envolve a companhia e algumas de suas principais subsidiárias. Segundo a empresa, o objetivo é reorganizar sua estrutura financeira, renegociar compromissos e preservar a continuidade das atividades. Durante o processo, a varejista afirma que pretende manter seus canais de atendimento e vendas funcionando normalmente.
A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira para permitir que empresas em dificuldades financeiras negociem suas dívidas de maneira organizada com os credores. O procedimento não significa, por si só, o encerramento das atividades ou a falência da companhia. A empresa continua operando enquanto busca construir um plano para reorganizar suas obrigações financeiras e recuperar a capacidade de geração de caixa.
Entre as medidas adotadas pela Casas Bahia está o fechamento de 298 pontos de venda, número equivalente a aproximadamente 29% da rede existente no fim de junho. A estratégia busca reduzir despesas e concentrar a operação em unidades e categorias consideradas mais rentáveis. A companhia também pretende diminuir a necessidade de capital empregado nas operações e melhorar sua capacidade financeira.
As mudanças tiveram impacto direto sobre os trabalhadores. Informações divulgadas nos últimos dias apontam para cerca de 1,9 mil desligamentos já realizados ou associados ao fechamento das unidades, enquanto documentos e estimativas relacionados à reestruturação indicam que o número de demissões pode chegar a aproximadamente 3 mil funcionários. A empresa possuía cerca de 30 mil colaboradores no fim do primeiro semestre.
O resultado financeiro divulgado pela companhia ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. O prejuízo de R$ 10,1 bilhões registrado entre abril e junho ficou muito acima da perda de R$ 555 milhões contabilizada no mesmo período do ano anterior. Apesar do valor expressivo, uma parcela significativa do resultado negativo esteve relacionada a efeitos contábeis extraordinários, estimados em R$ 9,1 bilhões, que não representam necessariamente uma saída imediata de dinheiro do caixa. O prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões.
A empresa atribuiu o agravamento da crise a uma combinação de fatores, entre eles juros elevados, maior restrição ao crédito, aumento das despesas financeiras e pressão sobre o consumo. A Casas Bahia também enfrentou dificuldades para concluir uma tentativa de captação internacional, o que reduziu as alternativas disponíveis para reforçar sua liquidez. O cenário se tornou ainda mais complexo porque a companhia já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial em 2024 para renegociar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas.
Do total de R$ 17,3 bilhões informado no novo processo, aproximadamente R$ 16,4 bilhões correspondem a obrigações com credores quirografários, enquanto cerca de R$ 754 milhões são relacionados a dívidas trabalhistas e R$ 154 milhões envolvem microempresas e empresas de pequeno porte. A companhia busca agora estabelecer uma nova estrutura para seus compromissos e criar condições para manter as atividades no longo prazo.
Apesar da dimensão da crise, a Casas Bahia afirma que a recuperação judicial faz parte de um processo de reorganização e que suas operações continuarão. A expectativa é que a empresa concentre esforços em áreas de maior rentabilidade, reduza custos e busque melhorar a geração de caixa. Para consumidores, a companhia informou que os canais de venda e atendimento devem permanecer disponíveis durante o processo.
O caso acompanha um período de forte pressão sobre empresas do varejo brasileiro, especialmente aquelas que dependem de crédito e financiamento para sustentar suas operações. A combinação entre custos financeiros elevados, mudanças nos hábitos de consumo e maior concorrência no comércio eletrônico aumentou a necessidade de adaptação das grandes redes. No caso da Casas Bahia, o pedido de recuperação judicial representa mais uma etapa de uma reestruturação que vem sendo realizada há alguns anos.
Agora, o processo seguirá os trâmites legais e deverá envolver negociações com diferentes grupos de credores. A companhia também convocará uma Assembleia Geral Extraordinária para que os acionistas ratifiquem a decisão tomada em caráter de urgência. O principal desafio será encontrar um equilíbrio entre a redução das despesas, a manutenção das operações e a construção de um plano capaz de reorganizar uma dívida de R$ 17,3 bilhões.



