Viih Tube é criticada após vídeo sobre trabalho doméstico gerar polêmica

A influenciadora digital Viih Tube e o marido, Eliezer, ex-participantes do Big Brother Brasil, enfrentaram intensa repercussão nas redes sociais após lançarem o reality show “As Patroas”, que colocava funcionários domésticos da residência do casal em competições por prêmios. O programa, iniciado no final de junho, gerou debates sobre os limites da exposição de trabalhadores em conteúdo de entretenimento e culminou em um acordo formal com o Ministério Público do Trabalho (MPT).
O formato consistia em uma competição entre 11 empregados, incluindo babás, cozinheira, motorista e auxiliares, que disputavam valores em dinheiro, redução de jornada e outros benefícios. As dinâmicas envolviam provas práticas na mansão do casal, o que rapidamente atraiu críticas de internautas. Muitos questionaram se as atividades, que incluíam buscas por objetos em áreas como banheiros, configuravam situações constrangedoras ou vexatórias, mesmo que realizadas no ambiente de trabalho doméstico.
A repercussão negativa foi imediata. Comentários nas redes sociais apontaram para a naturalização de desigualdades e o uso da rotina de funcionários como fonte de engajamento. Diante da pressão, o casal retirou os episódios do ar poucas horas após a estreia. Viih Tube chegou a se manifestar, defendendo que a ideia buscava promover reflexão sobre precarização do trabalho doméstico, mas reconheceu a insatisfação do público.
O caso chamou a atenção das autoridades trabalhistas. O MPT instaurou procedimento para apurar possíveis irregularidades, com foco na dignidade dos trabalhadores e no uso de sua imagem para fins comerciais. Após negociações, o casal assinou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) no final de julho. O acordo prevê o pagamento de R$ 350 mil a título de dano moral coletivo, o encerramento definitivo do reality e a remoção de todo o material já publicado.
Além disso, Viih Tube e Eliezer se comprometeram a não produzir conteúdos que exponham empregados a situações humilhantes ou vexatórias, mesmo com autorização prévia. O documento também exige a veiculação de três vídeos educativos sobre direitos e deveres dos trabalhadores domésticos nas redes sociais do casal. O primeiro desses conteúdos, que aborda o tema do trabalho análogo à escravidão doméstica, foi publicado recentemente em parceria com o MPT.
Em vídeo, Viih Tube comentou a decisão de transformar a situação em oportunidade de conscientização. “Vamos fazer do limão uma limonada”, afirmou, destacando a importância de orientar empregadores e empregados sobre boas práticas. A influenciadora reforçou que os funcionários participaram de forma voluntária, com roteiros e contratos definidos, mas reconheceu a responsabilidade de influenciadores com grande audiência. Ela também esclareceu que o valor da indenização não será destinado diretamente aos trabalhadores envolvidos, mas a um fundo público voltado a projetos de interesse coletivo.
O episódio reacendeu discussões sobre os limites éticos e jurídicos na criação de conteúdo digital. Especialistas em direito do trabalho lembram que a relação empregatícia doméstica envolve assimetria de poder, o que exige cautela redobrada na obtenção de consentimento para gravações e exposições públicas. Mesmo quando há autorização formal, órgãos como o MPT e o Tribunal Superior do Trabalho (TST) enfatizam a proteção à dignidade humana e o combate a qualquer forma de assédio moral no ambiente laboral.
Funcionárias do casal chegaram a gravar depoimentos defendendo os patrões durante a polêmica inicial, afirmando que se sentiam bem tratadas e que o reality representava uma oportunidade de prêmios. No entanto, a controvérsia ganhou força pelo contraste entre a vida de luxo exibida pelos influenciadores e as condições rotineiras de trabalhadores domésticos no país.
O caso de Viih Tube e Eliezer não é isolado. Nos últimos anos, diversas produções digitais que envolvem empregados em dinâmicas de entretenimento geraram questionamentos semelhantes, levando plataformas e criadores a revisarem práticas. O acordo com o MPT serve como lembrete de que a visibilidade nas redes sociais traz responsabilidades jurídicas e éticas, especialmente quando se trata de relações de trabalho.
Para o casal, o desfecho representa o encerramento de um capítulo conturbado e o início de uma nova fase de produção de conteúdo. A obrigatoriedade dos vídeos educativos pode contribuir para ampliar o debate sobre direitos trabalhistas no setor doméstico, que ainda emprega milhões de brasileiros, majoritariamente mulheres. Enquanto isso, o público continua acompanhando as movimentações dos influenciadores, atentos aos próximos passos em um cenário cada vez mais atento a questões de dignidade e respeito no trabalho.



