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Juliana Soares: da sobrevivência à candidatura política

Natal, Rio Grande do Norte – Juliana Soares, que sobreviveu a uma das agressões mais brutais registradas em vídeo no Brasil, anunciou sua pré-candidatura a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2026. O anúncio, feito nesta semana, marca mais um capítulo na trajetória de uma mulher que transformou dor extrema em ativismo público.

Em julho de 2025, Juliana foi vítima de uma tentativa de feminicídio dentro do elevador de um condomínio em Ponta Negra, bairro turístico de Natal. As imagens das câmeras de segurança mostraram o ex-namorado, o ex-atleta Igor Eduardo Pereira Cabral, desferindo 61 socos contra ela durante a descida do 16º andar até o térreo. O episódio, que durou cerca de 34 segundos, deixou Juliana com múltiplas fraturas no rosto, incluindo nariz, maxilar, bochecha e órbita ocular. Ela precisou passar por uma complexa cirurgia de reconstrução facial que durou mais de sete horas.

Apesar da gravidade dos ferimentos, Juliana recuperou-se de forma notável. Nos meses seguintes, compartilhou parte de sua reabilitação nas redes sociais, mostrando os desafios diários e o processo de retorno à vida normal. Sua história ganhou repercussão nacional, gerando comoção e debates sobre violência doméstica. O agressor foi preso em flagrante e tornou-se réu por tentativa de feminicídio, respondendo ao processo judicial em prisão preventiva.

Após o episódio, Juliana passou de vítima a voz ativa na defesa dos direitos das mulheres. Ela recebeu homenagens, como a Comenda Maria da Penha na Câmara Municipal de Natal, e começou a realizar palestras e atender pedidos de ajuda de outras vítimas. Em entrevistas, relatou ter sido procurada por centenas de mulheres que enfrentavam situações semelhantes ou ainda mais graves. Esse contato direto, segundo ela, reforçou sua decisão de entrar para a política.

“Recebi inúmeros pedidos de ajuda. Senti o apelo de poder fazer algo concreto”, afirmou Juliana ao explicar os motivos que a levaram à candidatura. Ela defende que sua experiência como sobrevivente pode contribuir para a criação de leis e políticas mais efetivas de proteção e apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade. Formada e atuante em causas sociais, Juliana sempre se posicionou à esquerda do espectro político, valorizando iniciativas como o fortalecimento do sistema público de saúde – do qual dependeu durante o tratamento – e a promoção de oportunidades por meio de políticas públicas.

A escolha pelo PT não foi casual. Filiada recentemente, Juliana vê na legenda um espaço alinhado aos seus valores de justiça social e enfrentamento às desigualdades. “Acredito no potencial que as pessoas têm de transformar suas realidades”, disse ela, destacando a importância de educação, saúde acessível e mobilidade como ferramentas de emancipação.

O anúncio da pré-candidatura, no entanto, também trouxe reações adversas. Nas redes sociais, Juliana enfrentou ataques e ofensas, muitas vezes ligadas à sua posição política. Ela lamenta esse tipo de comportamento, defendendo que divergências ideológicas não justificam ataques pessoais, especialmente contra alguém com histórico de violência. “Vivemos em um país democrático. As pessoas podem discordar, mas isso não dá o direito de me atacar pela minha história”, pontuou.

O caso de Juliana ilustra uma realidade preocupante no Brasil, onde a violência contra a mulher ainda se apresenta de forma alarmante. Dados oficiais apontam milhares de casos de feminicídio e agressões anualmente, muitos cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Organizações e autoridades reforçam a necessidade de denúncia imediata, por meio de canais como o 190 e o Ligue 180, além de redes de apoio psicológico e jurídico.

Hoje, Juliana se recupera plenamente e caminha com determinação. Sua trajetória – do elevador em Natal à disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte – simboliza resiliência. Ela afirma que sua luta não é individual, mas coletiva, representando milhares de mulheres que buscam recomeço.

A entrada de sobreviventes como Juliana no debate político pode trazer novas perspectivas ao Legislativo. Se eleita, ela promete priorizar pautas de proteção à mulher, enfrentamento à violência de gênero e criação de mecanismos que facilitem o acesso a justiça e recuperação. Seu caso continua a inspirar debates sobre segurança pública, saúde mental e o papel das instituições na prevenção de tragédias semelhantes.

Enquanto a campanha ainda está em fase inicial, a história de Juliana Soares já transcende números eleitorais. Representa a capacidade humana de superar adversidades e buscar mudança a partir da própria experiência. Em um país que ainda registra altos índices de violência doméstica, vozes como a dela ganham importância no esforço contínuo por uma sociedade mais segura e igualitária.

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