Firma sancionada nos EUA recebeu R$ 514 milhões da rede de lavagem do Careca do INSS

As investigações sobre movimentações financeiras ligadas a empresas suspeitas de atuar em esquemas de lavagem de dinheiro ganharam um novo capítulo nesta semana. Uma das empresas sancionadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) aparece como destinatária de mais de R$ 514 milhões enviados por uma companhia apontada como integrante de uma rede investigada pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.
A empresa citada é a Victory Trading Intermediação de Negócios, de propriedade de Victor Henrique de Oliveira Shimada. De acordo com documentos da investigação, entre setembro de 2023 e setembro de 2024, a empresa recebeu R$ 514,5 milhões da Wave Intermediações, considerada uma das principais integrantes da chamada rede Arpar.
Segundo o relatório final da CPMI do INSS, a rede Arpar reúne mais de 40 empresas com indícios de funcionamento como estruturas de fachada. O objetivo, conforme os investigadores, seria movimentar recursos financeiros sem justificativas econômicas claras. O documento afirma que o grupo teria movimentado mais de R$ 39 bilhões e seria utilizado para dar aparência de legalidade a valores desviados em um esquema investigado no âmbito do INSS.
Apesar da ligação financeira identificada entre a Wave Intermediações e a Victory Trading, as investigações apontam que a empresa não possui relação direta com a Wave Construções Inteligentes, outra companhia incluída na lista de sanções anunciadas pelos Estados Unidos.
Além da Victory Trading, também foram alvo das medidas o empresário Victor Shimada, a Pixwave Soluções de Pagamentos, uma secretária ligada ao grupo empresarial e uma empresa sediada em Portugal. A decisão chamou atenção por representar a primeira sanção aplicada pelos Estados Unidos com base em suposta ligação com o PCC após a classificação da organização como grupo terrorista pelas autoridades norte-americanas.
Outro ponto destacado pela investigação envolve relatórios de inteligência financeira analisados durante os trabalhos da CPMI. Embora a comissão não tenha conseguido obter a quebra dos sigilos da Victory Trading, documentos apontam conexões entre a empresa e a ACX ITC Serviços de Tecnologia, outra companhia mencionada na rede Arpar.
Os relatórios indicam que a ACX ITC utilizava o mesmo dispositivo eletrônico para acessar contas vinculadas à Victory Trading e à Texas Quantum Serviços Digitais. Para os investigadores, esse tipo de coincidência pode indicar uma administração compartilhada entre empresas diferentes, hipótese que segue sob análise das autoridades.
A ACX ITC também ganhou destaque após a quebra de seus sigilos bancários revelar pagamentos destinados a autoridades e ex-integrantes do Judiciário. As investigações, entretanto, continuam em andamento e ainda não representam conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade dos envolvidos.
O nome de Victor Shimada também aparece em outra apuração que investiga o destino de recursos relacionados ao contrato de patrocínio entre a VaideBet e o Corinthians. Conforme o Ministério Público, ele teria exercido o papel de operador financeiro em movimentações analisadas durante o inquérito.
A Wave Intermediações também foi mencionada pelo delator Vinicius Gritzbach, cujo caso teve grande repercussão nacional em 2024. Segundo informações reunidas pela CPMI, a empresa movimentou cerca de R$ 2,68 bilhões entre setembro de 2023 e agosto de 2025. Relatórios de inteligência financeira afirmam que não foram identificadas justificativas econômicas suficientes para parte dessas operações, apontando possíveis indícios de lavagem de dinheiro, prática que consiste em ocultar a origem de recursos para inseri-los na economia formal com aparência de legalidade.
As investigações seguem em andamento no Brasil e também despertam atenção internacional, ampliando o acompanhamento sobre movimentações financeiras consideradas atípicas e seus possíveis desdobramentos.



