Morre Celso Matias, médico conhecido como o homem da ética médica, aos 98 anos

A medicina potiguar perdeu nesta semana uma de suas figuras mais respeitadas. Morreu na noite de terça-feira (23), aos 98 anos, o médico e professor Celso Matias de Almeida, nome que se tornou referência no Rio Grande do Norte pela defesa incansável de uma prática médica mais humana, ética e próxima do paciente. Reconhecido por gerações de alunos e colegas como “o homem da ética médica”, Celso construiu uma trajetória marcada não apenas pelo conhecimento técnico, mas, sobretudo, pela forma como enxergava a relação entre médico e paciente: como um vínculo de cuidado, escuta e responsabilidade.
Formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Celso Matias dedicou grande parte de sua vida profissional ao ensino e à assistência médica no Rio Grande do Norte. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde se tornou professor de carreira, lecionou disciplinas como Fisiologia e Semiologia Médica, ajudando a formar inúmeras gerações de profissionais da saúde até se aposentar, em 1995. Ao longo da vida acadêmica, tornou-se um nome respeitado dentro da instituição, tanto pelo domínio do conteúdo quanto pela forma como conduzia a formação dos futuros médicos, sempre reforçando a importância da ética, da sensibilidade e do olhar integral sobre o paciente.
Foi justamente essa postura que o transformou em uma figura singular dentro da medicina potiguar. A alcunha de “homem da ética médica” não surgiu por acaso nem como um título formal: veio dos próprios alunos, que viam em Celso Matias um professor comprometido com uma medicina menos fria e mais humana. Em tempos em que a técnica muitas vezes se sobrepõe ao contato pessoal, ele insistia que o bom médico precisava ir além do diagnóstico e da prescrição. Para ele, a escuta, o respeito e a empatia eram partes inseparáveis do cuidado. Essa visão, repetida ao longo de décadas de docência e consultório, fez dele uma referência não só profissional, mas também moral para muitos dos que passaram por sua formação.
Especialista em geriatria, Celso Matias também se destacou pelo atendimento à população idosa, área à qual dedicou boa parte de sua carreira. Ele mantinha consultório na Rua Mossoró, no bairro Tirol, na zona Leste de Natal, onde continuou atendendo pacientes e exercendo a medicina com o mesmo zelo que marcou sua trajetória acadêmica. A escolha pela geriatria não parecia casual: ela dialogava diretamente com sua visão de cuidado, baseada na atenção individualizada, na paciência e no entendimento das necessidades específicas de cada pessoa. Para muitos pacientes e familiares, ele representava justamente essa medicina mais acolhedora, em que o tratamento não se limitava à doença, mas considerava a história e a dignidade de quem estava sendo atendido.
Mesmo já em idade avançada, Celso Matias continuou dando exemplos públicos de comprometimento com a saúde e com a população. Um dos episódios mais lembrados ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando, já aos 92 anos, escreveu à mão uma série de recomendações voltadas às pessoas idosas para ajudar na prevenção ao vírus. O gesto chamou atenção por traduzir, em um momento de medo e incerteza, a essência de sua atuação profissional: orientar, proteger e cuidar. Mais do que um médico experiente, ele seguia sendo alguém preocupado em transmitir conhecimento de forma simples, acessível e afetuosa, especialmente a quem mais precisava de atenção naquele contexto.
A morte de Celso Matias gerou manifestações de pesar entre entidades médicas e pessoas que conviveram com ele ao longo de décadas. Em nota, o Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed-RN) lamentou a perda e destacou a relevância de sua contribuição para a medicina e para a formação de profissionais da saúde. Segundo a entidade, o médico deixa um legado marcado pelo compromisso com o ensino, com o conhecimento e com o cuidado dedicado a pacientes e alunos. A homenagem também ressaltou sua atuação como médico generalista, sua especialização em geriatria e o impacto de sua passagem pela UFRN, onde ajudou a moldar a formação de diversos profissionais que hoje atuam no estado e fora dele.
O corpo de Celso Matias foi sepultado nesta quarta-feira (24), no Cemitério Morada da Paz, em Emaús, no município de Parnamirim. A despedida encerra a trajetória de quase um século de vida de um homem que atravessou gerações e deixou marcas profundas em diferentes frentes: na sala de aula, no consultório, na formação ética da medicina e na memória de quem foi cuidado ou ensinado por ele. Em um tempo de transformações aceleradas na saúde, a história de Celso Matias permanece como lembrança de que conhecimento técnico e humanidade não precisam andar separados. No caso dele, foram justamente essas duas qualidades, unidas, que fizeram nascer um legado raro — e difícil de substituir.



