Flávio Bolsonaro anuncia ida aos EUA

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que vai aos Estados Unidos para tentar barrar a proposta de nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e pretende participar de uma audiência pública marcada para 6 de julho. A movimentação ocorre em meio à crise comercial aberta pelo governo norte-americano contra o Brasil e amplia a politização do tema, já que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tenta se apresentar como interlocutor direto junto à gestão de Donald Trump para evitar prejuízos ao setor produtivo brasileiro.
Segundo o Poder360 e outras publicações desta terça-feira (23), Flávio pediu para falar na audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, órgão responsável por conduzir a investigação comercial contra o Brasil. A intenção do senador é fazer um depoimento oral, em inglês, com duração de cinco minutos, defendendo a suspensão do tarifaço. No requerimento encaminhado às autoridades americanas, ele se apresenta como senador da oposição e pré-candidato à Presidência da República, reforçando o peso político que pretende dar à participação no debate.
A audiência foi convocada depois que o governo dos Estados Unidos propôs a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre uma série de produtos brasileiros. A medida nasceu de uma investigação da gestão Trump sobre supostas práticas comerciais consideradas “desleais” por parte do Brasil. Entre os pontos levantados pelos americanos estão regras ligadas ao comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, tarifas preferenciais e outras políticas vistas por Washington como obstáculos ou distorções na relação bilateral. Caso a tarifa avance, a medida poderá atingir setores relevantes da pauta exportadora brasileira e ampliar a tensão entre os dois países.
Na justificativa apresentada ao governo americano, Flávio afirma que se opõe à tarifa “em nome dos consumidores e produtores de ambos os países” e em defesa de uma parceria comercial que, segundo ele, beneficia Brasil e Estados Unidos há mais de 80 anos. O senador tenta sustentar que a taxação prejudicaria não só exportadores brasileiros, mas também empresas e consumidores norte-americanos que mantêm relações comerciais com o país. A estratégia é a mesma que ele já vinha adotando desde o início da crise: a de se colocar como alguém capaz de conversar diretamente com Trump e com integrantes do alto escalão republicano para reduzir os danos da ofensiva comercial.
A nova investida ocorre poucas semanas depois de Flávio afirmar publicamente que pediu a Trump para não taxar as empresas brasileiras. Na ocasião, ele disse ter tratado do assunto em reuniões com o presidente americano, com o vice-presidente JD Vance e com o secretário de Estado, Marco Rubio. Agora, ao solicitar espaço formal numa audiência do USTR, o senador tenta transformar esse contato político em gesto concreto de campanha e de atuação internacional. A operação tem também um forte componente de imagem: ao falar em “defender o Brasil” da tarifa, Flávio procura neutralizar as críticas de que a família Bolsonaro teria contribuído para o desgaste da relação entre Brasília e Washington.
O tema, porém, está longe de ser consensual no debate político brasileiro. Desde o anúncio da proposta de tarifa, adversários de Flávio e do bolsonarismo têm associado a medida à aproximação da família com Trump e ao discurso frequente de confronto com o governo Lula e com o Supremo Tribunal Federal. Nas redes sociais e no meio político, a sobretaxa virou munição para acusações de submissão a interesses externos e de uso eleitoral de uma crise comercial que afeta empresas nacionais. O senador, por sua vez, tenta inverter essa narrativa ao dizer que está atuando justamente para impedir a punição econômica e proteger os exportadores brasileiros.
Se o pedido de Flávio for aceito, a audiência de 6 de julho deve se transformar em mais um palanque internacional da pré-campanha presidencial de 2026. O senador poderá usar o depoimento como vitrine para reforçar o discurso de que tem acesso à Casa Branca e condições de negociar diretamente com o governo americano. Ao mesmo tempo, a iniciativa eleva a pressão sobre o governo Lula, que terá de lidar não apenas com a ameaça tarifária em si, mas também com o desgaste político de ver um adversário tentando ocupar o espaço de negociador informal do interesse brasileiro no exterior. Em resumo: Flávio quer vender a imagem de bombeiro de um incêndio que, para muita gente em Brasília, também tem digitais do próprio bolsonarismo.



