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Gleisi pressiona Alcolumbre por CPI do Banco Master e liga escândalo bancário ao bolsonarismo

A sessão conjunta do Congresso Nacional desta semana ganhou um contorno mais tenso do que o previsto. O que deveria ser uma análise concentrada no Veto nº 3 acabou abrindo espaço para um novo embate político, com direito a cobranças públicas e recados diretos no plenário. No centro da discussão, dois temas que vêm mobilizando Brasília: os desdobramentos institucionais do 8 de janeiro e as suspeitas envolvendo o Banco Master.

Ao subir à tribuna, a deputada Gleisi Hoffmann adotou um tom firme. Primeiro, defendeu a manutenção do veto presidencial, apresentado por Luiz Inácio Lula da Silva, que impede mudanças em regras que poderiam suavizar punições relacionadas aos atos de janeiro. Em sua fala, classificou qualquer tentativa de derrubar o veto como um gesto de complacência com ações que colocaram em risco a estabilidade institucional do país.

Mas foi na sequência que o discurso ganhou um novo foco. Gleisi passou a cobrar, de forma direta, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. O pedido: a leitura imediata do requerimento que viabiliza a criação da CPI do Banco Master. O documento já reúne assinaturas suficientes para avançar — 53, segundo o regimento — e depende apenas desse ato formal para sair do papel.

O clima no plenário mudou. Parlamentares da oposição reagiram, enquanto aliados do governo reforçaram o coro pela investigação. Nos corredores, a avaliação era de que o episódio reacendeu uma disputa que vinha se desenrolando de forma mais silenciosa.

A CPI, se instalada, deve se debruçar sobre uma série de pontos sensíveis. Entre eles, suspeitas de movimentações financeiras envolvendo atores políticos, decisões tomadas por autoridades monetárias em gestões anteriores e a venda do Banco Master ao Banco de Brasília. Este último ponto, inclusive, ganhou força após a Polícia Federal decidir prorrogar o inquérito por mais 60 dias.

Os números também chamam atenção. Estimativas indicam que o impacto financeiro potencial no BRB pode ultrapassar R$ 5 bilhões. Para conter riscos, foi aprovado um aumento de capital que pode chegar a R$ 8,8 bilhões — um valor significativo, que, direta ou indiretamente, envolve recursos públicos e investidores institucionais.

Durante sua fala, Gleisi fez questão de conectar os dois debates — o veto presidencial e a CPI — como parte de um mesmo cenário político. Na interpretação da deputada, há uma convergência de interesses entre setores que buscam evitar investigações mais profundas e aqueles que defendem mudanças nas regras relacionadas ao 8 de janeiro.

Outro ponto levantado foi a possibilidade de a comissão investigar conexões mais amplas, incluindo eventuais vínculos financeiros com figuras públicas de destaque. A menção ao ex-presidente Jair Bolsonaro ampliou ainda mais a repercussão do discurso, trazendo novos atores para o centro da narrativa.

Enquanto isso, o impasse segue. A leitura do requerimento ainda não foi realizada, e senadores favoráveis à CPI já recorreram ao Supremo Tribunal Federal na tentativa de destravar o processo. Nos bastidores, cresce a percepção de que adiar indefinidamente essa decisão pode gerar desgaste político relevante.

Até que haja uma definição, o tema promete continuar ocupando espaço nas sessões e nos debates públicos. A estratégia de manter o assunto em evidência, com repetição de dados e cobranças, indica que o episódio ainda está longe de um desfecho. Em Brasília, como se sabe, silêncio raramente dura muito tempo.

 

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