Lula trata Lulinha no caso INSS como tratou Dirceu no Mensalão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a adotar um discurso firme e pessoal diante de suspeitas que atingem alguém de seu círculo mais próximo. Desta vez, o alvo da atenção foi o próprio filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, citado em investigações relacionadas à chamada “Farra do INSS”, esquema de desvios no instituto revelado por reportagens recentes do portal Metrópoles. Em entrevista concedida ao Uol nesta quinta-feira (5/2), Lula falou abertamente sobre o assunto e relembrou, ainda que de forma indireta, um capítulo marcante de sua trajetória política: o Mensalão.
Segundo o presidente, ao tomar conhecimento de que o nome do filho aparecia nas investigações, decidiu chamá-lo para uma conversa direta. Nada de intermediários, notas frias ou discursos ensaiados. Lula disse que olhou nos olhos de Lulinha e foi claro: se houver envolvimento, será preciso arcar com as consequências; se não houver, é direito dele se defender. A fala, simples e direta, chamou atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo tom — muito semelhante ao adotado por Lula há cerca de 20 anos, quando enfrentou a crise política que abalou seu primeiro mandato.
“Só você sabe a verdade”, disse Lula ao filho, de acordo com o relato feito na entrevista. A frase carrega um peso simbólico forte. Não se trata apenas de uma orientação paterna, mas de uma mensagem política clara: laços familiares não devem servir de escudo diante de investigações. Para aliados e críticos, o recado foi entendido como um esforço do presidente em manter coerência com o discurso histórico de defesa das instituições e do devido processo legal.
Esse posicionamento remete diretamente ao episódio envolvendo José Dirceu, então ministro da Casa Civil e um dos principais nomes do governo Lula no início dos anos 2000. Quando o Mensalão veio à tona, em 2005, Lula afirmou publicamente ter se sentido “traído” e determinou que ninguém fosse poupado. Em declaração feita em agosto daquele ano, o presidente disse que as investigações deveriam seguir até o fim, alcançando culpados de qualquer partido ou posição política.
Na época, Dirceu acabou afastado do cargo para não atrapalhar as apurações. Questionado dias depois sobre a fala do presidente, o ex-ministro evitou confronto direto e jogou a resposta de volta para Lula, dizendo que cabia a ele apontar quem o teria traído. A crise marcou profundamente o governo e redefiniu rumos políticos importantes, tanto para o PT quanto para o próprio presidente.
Agora, duas décadas depois, o contexto é outro, mas o método parece familiar. Ao falar publicamente sobre Lulinha, Lula sinaliza que não pretende minimizar a situação nem tratar o caso como perseguição automática. Ao mesmo tempo, evita prejulgamentos, reforçando que investigações existem para esclarecer fatos, não para condenar previamente.
Em um cenário político já bastante polarizado e com redes sociais amplificando cada declaração, a postura do presidente tende a gerar reações diversas. Para alguns, trata-se de coerência. Para outros, de uma tentativa de controlar danos. O fato é que, mais uma vez, Lula escolheu falar de frente, assumindo o desgaste que isso pode trazer. E, na política brasileira, esse tipo de escolha raramente passa despercebido.



