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Por domiciliar a Bolsonaro, Michelle e Valdemar pedem moderação contra o STF

Nos bastidores da política brasileira, o clima mudou. Quem acompanha o dia a dia de Brasília percebe que, nas últimas semanas, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a adotar um discurso bem diferente daquele que marcou os últimos anos. Menos embates diretos, menos frases de efeito e mais cuidado com cada palavra dita em público. Nada disso é por acaso.

Com a expectativa de convencer o Supremo Tribunal Federal (STF) a conceder prisão domiciliar a Bolsonaro, a primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entraram em cena para pedir serenidade. Segundo relatos de parlamentares e dirigentes do partido, o recado foi claro: baixar o tom. A orientação circulou em conversas reservadas, mas também apareceu de forma explícita em grupos internos do partido.

Michelle, que assumiu um papel político mais ativo desde a prisão do marido, teria reforçado que ataques ao STF poderiam ser interpretados como tentativa de pressão indevida. Em um momento delicado como esse, qualquer ruído poderia atrapalhar. No entorno de Valdemar Costa Neto, a avaliação é semelhante. A leitura predominante é que novos confrontos públicos só aumentariam a tensão e dificultariam qualquer avanço no pedido de prisão domiciliar.

Durante anos, o enfrentamento com o Supremo funcionou como combustível para a mobilização do bolsonarismo. Agora, porém, aliados admitem que esse mesmo discurso se tornou um obstáculo. O cenário é outro, e a estratégia precisou ser recalculada.

No mês passado, Michelle esteve com os ministros Alexandre de Moraes, relator do processo, e Gilmar Mendes, decano da Corte. O objetivo foi sensibilizar os magistrados e reforçar a necessidade de um ambiente político menos carregado. A aposta passou a ser uma linha mais humanitária, centrada nas condições de saúde do ex-presidente. Para isso funcionar, dizem aliados, o discurso público precisava acompanhar.

Interlocutores do STF afirmam, sob reserva, que o pedido de prisão domiciliar começou a ser analisado com mais atenção nas últimas semanas. Isso fez com que o cuidado com a retórica fosse redobrado. Palavras antes comuns em atos e redes sociais deram lugar a termos como dignidade, garantias individuais e bem-estar. A ideia agora é sensibilizar, não confrontar.

Esse movimento ficou evidente após a visita do bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra, à Papudinha. Ao falar com a imprensa, ele descreveu um Bolsonaro abatido, com dificuldades para dormir e se alimentar. A senadora Damares Alves seguiu a mesma linha, destacando problemas de saúde e defendendo que o ex-presidente deveria cumprir a pena em casa.

Outro sinal claro dessa mudança veio do deputado Nikolas Ferreira. Durante uma caminhada rumo a Brasília, ele surpreendeu aliados ao elogiar uma decisão do ministro Alexandre de Moraes que restringiu manifestações próximas ao presídio. Mais tarde, voltou a criticar o magistrado, mas sem a intensidade de outros momentos.

Nos bastidores, há também um cálculo político. Pessoas próximas a Michelle acreditam que, caso Bolsonaro consiga a prisão domiciliar, ele poderá voltar a influenciar diretamente as articulações eleitorais. Isso reabriria o debate sobre sucessão, hoje com Flávio Bolsonaro apontado como herdeiro político.

Ainda assim, o cenário segue em aberto. Após visitar Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, reforçou apoio ao projeto de Flávio e reiterou que seu foco é a reeleição estadual. Enquanto isso, aliados seguem apostando que, em política, o tom da voz pode ser tão decisivo quanto o conteúdo das palavras.

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