Moraes pode conceder domiciliar a Bolsonaro e a razão vai te surpreender

O ambiente no Supremo Tribunal Federal mudou de tom nos últimos dias — e não foi de forma sutil. Nos bastidores de Brasília, começa a ganhar corpo a defesa da prisão domiciliar para o ex-presidente Jair Bolsonaro. A mudança chama atenção não por compaixão ou por uma guinada jurídica inesperada, mas por um cálculo frio, típico dos momentos em que a política institucional percebe que o desgaste pode sair caro demais.
A informação foi revelada pela colunista Malu Gaspar, de O Globo, e rapidamente repercutiu no meio político. Segundo a apuração, ministros do STF passaram a apoiar, de maneira reservada, a transferência de Bolsonaro para o regime domiciliar. O dado contrasta com o discurso público adotado até pouco tempo atrás, quando integrantes da Corte faziam questão de afastar qualquer possibilidade nesse sentido. O estado de saúde do ex-presidente, vale frisar, não apresentou mudança brusca recente. O que mudou foi o contexto.
Na semana anterior, um episódio ilustrou bem a tensão. Durante a caminhada do deputado Nikolas Ferreira, de Paracatu (MG) até Brasília, ministros chegaram a afirmar à revista Veja que a domiciliar estava fora de cogitação. Um deles ironizou que, com aliados daquele tipo, Bolsonaro não precisaria de adversários. Poucos dias depois, o cenário se inverteu. Agora, cresce dentro do Supremo a avaliação de que manter o ex-presidente preso pode gerar mais problemas do que soluções.
De acordo com Malu Gaspar, o ministro Gilmar Mendes teria se tornado uma das vozes mais influentes a favor da domiciliar. Em conversas reservadas, ele passou a defender a alternativa, sempre com a ressalva formal de que a decisão final cabe ao relator, Alexandre de Moraes. No meio jurídico, porém, ninguém ignora o peso político de Gilmar dentro da Corte. Quando esse tipo de posição chega à imprensa, dificilmente é por acaso. Em Brasília, vazamentos costumam ser mensagens calculadas.
Outro nome citado como favorável é Kassio Nunes Marques, indicado por Bolsonaro, o que não surpreende. A novidade está no argumento que circula entre interlocutores do próprio STF: o receio de que um agravamento no estado de saúde de Bolsonaro, sob custódia do Estado, recaia diretamente sobre a imagem do tribunal. A lembrança do caso de Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão, morto enquanto estava preso, ainda pesa. Um episódio semelhante envolvendo um ex-presidente teria impacto institucional difícil de mensurar.
Esse temor não surge isolado. O STF atravessa um período de exposição intensa, com decisões controversas, questionamentos públicos e investigações que atingem figuras centrais da Corte. Declarações recentes, como a da ex-ministra Eliana Calmon à BBC, reforçaram a percepção de distanciamento entre o Judiciário e parte significativa da população. O tribunal sabe que a temperatura social está elevada.
Nesse contexto, ganha relevância a decisão de Alexandre de Moraes de determinar uma avaliação médica completa de Bolsonaro, a ser feita por peritos da Polícia Federal. Os exames já foram realizados, restando apenas a divulgação do laudo. O gesto, que parecia apenas um procedimento técnico, passou a ser visto como uma possível saída institucional: permitir a domiciliar com base em critérios médicos, sem admitir recuo político ou erro de avaliação.
Nada disso indica uma reaproximação ideológica ou um gesto de conciliação com a direita. Trata-se de pragmatismo. O Supremo avalia riscos, custos e consequências. Manter Bolsonaro preso, neste momento específico, pode aprofundar o desgaste de uma instituição que já enfrenta questionamentos diários. Aliviar o regime, por outro lado, pode reduzir tensões e redistribuir responsabilidades.
Quando adversários históricos passam a defender soluções mais brandas, raramente é por mudança de convicção. Na política, quase sempre é instinto de preservação.



