Homem que roubou mais de 100 bancos, hoje afirma que não tem nem onde morar

Aos 67 anos, Pedro Rocha Filho voltou a cruzar a porta de uma agência bancária em Apodi, no interior do Rio Grande do Norte. O gesto, que décadas atrás causaria tensão e correria, desta vez teve outro significado. Não havia plano, nem fuga, nem dinheiro envolvido. Ao lado dele estava apenas um escritor, um caderno de anotações e uma história longa demais para ser ignorada. Conhecido como Coroa, ele retornava aos cenários do próprio passado para revisitar escolhas que marcaram sua vida e a de muita gente.
Durante anos, o nome de Pedro Rocha foi associado a ações criminosas em vários estados do Nordeste. Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Pernambuco fizeram parte de um roteiro que se repetia com frequência. Ele liderou grupos organizados e participou de mais de cem roubos a bancos, tornando-se uma figura conhecida na crônica policial da região. À época, seu nome circulava com força em jornais, rádios e programas de televisão, sempre acompanhado de relatos de operações ousadas e perseguições longas.
Hoje, o tom é outro. Coroa admite, sem rodeios, que a vida fora da lei não lhe trouxe ganhos duradouros. O dinheiro que passou por suas mãos nunca se transformou em segurança, estabilidade ou futuro. “Não ficou nada”, resume quem vive agora uma realidade bem distante daquela imagem de poder construída no passado. Essa trajetória, cheia de contrastes, foi reunida no livro Pedro Rocha – A história de um dos mais temidos assaltantes de bancos do Nordeste, escrito pelo jornalista e policial penal Márcio Moraes.
Para construir a obra, o autor obteve autorização judicial que permitiu acompanhar o ex-detento em visitas a antigos esconderijos e cidades onde atuou. O objetivo não era romantizar o passado, mas registrar os fatos com contexto, mostrando como decisões tomadas em um período específico da vida reverberam por décadas. A proposta da Editora Unilivreira é justamente essa: apresentar o auge e, principalmente, a queda de um personagem real, sem filtros exagerados.
O peso das escolhas aparece também nos números da condenação. Ao longo de sua trajetória penal, Pedro Rocha acumulou penas que somaram 131 anos e oito meses de reclusão em regime fechado. Ele cumpriu mais de 26 anos atrás das grades. Em setembro de 2021, passou a cumprir prisão domiciliar, benefício concedido dentro dos critérios legais. Sua última detenção havia ocorrido em 2002, em Alagoas, após uma operação da Polícia Federal que encerrou de vez sua atuação criminosa.
Naquele período, seus crimes ganharam repercussão nacional. Chegaram, inclusive, a ser retratados no programa Linha Direta, da TV Globo, que reconstituía casos conhecidos do público brasileiro. Para muitos, Coroa era apenas um nome distante, quase um personagem. Para ele, era a própria vida sendo consumida pouco a pouco.
O presente, no entanto, revela um contraste duro. Atualmente, Pedro Rocha vive em situação de extrema vulnerabilidade na periferia de Mossoró. Sem condições financeiras, depende da Defensoria Pública para questões jurídicas e da ajuda de familiares para ter onde ficar. Segundo o autor do livro, nem mesmo os cinco filhos tiveram acesso a investimentos em educação durante os anos em que o pai esteve envolvido com o crime.
Ao revisitar bancos e cidades que marcaram sua história, Coroa não busca absolvição pública. O que existe é uma tentativa de registro, quase um aviso silencioso. A trajetória que um dia pareceu grandiosa terminou em isolamento e escassez. O livro, mais do que contar feitos do passado, expõe o custo real de uma vida construída fora da lei, algo que nem sempre aparece nas manchetes, mas permanece depois que os holofotes se apagam.



