Após a ameaça de Trump, Brasil lança nota e pede diálogo com o Irã

O governo brasileiro manifestou posição oficial em meio à grave crise que assola o Irã desde o final de dezembro de 2025, caracterizada por intensas manifestações populares contra o regime, repressão violenta e um número significativo de mortes. O Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, divulgou nota expressando preocupação com a escalada dos protestos e lamentando profundamente as vítimas fatais, ao mesmo tempo em que apresentou condolências às famílias afetadas. Até o momento, não há registro de brasileiros entre os mortos ou feridos, o que permite ao Brasil manter foco na dimensão humanitária e diplomática do episódio.
A declaração brasileira surge em resposta direta às ameaças proferidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem intensificado sua retórica contra o governo iraniano. Trump incitou os manifestantes a prosseguir com as ações nas ruas, chegou a afirmar que “a ajuda está a caminho” e ameaçou intervenção militar caso a repressão continue de forma violenta, além de anunciar a imposição de tarifas de 25% sobre exportações de qualquer país que mantenha relações comerciais com o Irã. Essas medidas colocam pressão adicional sobre Teerã e geram preocupações em nações com laços econômicos relevantes com o país persa.
O Itamaraty reforçou princípios tradicionais da política externa brasileira, como o respeito absoluto à soberania nacional e à não-intervenção em assuntos internos de outros Estados. A nota enfatiza que cabe exclusivamente ao povo iraniano decidir, de forma soberana, sobre o futuro político e institucional de seu país, sem interferências externas. Essa postura reflete a tradição diplomática do Brasil de defender soluções endógenas para crises internas e evitar alinhamentos automáticos em disputas geopolíticas.
Em vez de endossar ameaças ou medidas punitivas unilaterais, o governo brasileiro optou por convocar um diálogo pacífico, substantivo e construtivo entre todos os atores envolvidos na crise iraniana. A proposta busca abrir canais para que governo e oposição possam negociar saídas que respeitem os direitos humanos, reduzam a violência e atendam às demandas legítimas da população, muitas delas ligadas à crise econômica e ao descontentamento social acumulado.
A posição do Brasil também revela preocupação com os impactos indiretos das ameaças americanas, especialmente no campo econômico. O Irã representa parceiro comercial relevante para o Brasil, sobretudo no Oriente Médio, com superávit comercial expressivo em favor do país sul-americano, concentrado em exportações agrícolas e outras commodities. A eventual implementação de tarifas retaliatórias por parte dos Estados Unidos poderia afetar seriamente setores estratégicos da economia brasileira, forçando o governo a buscar equilíbrio entre relações bilaterais com Washington e Teerã.
Ao priorizar o diálogo em vez do confronto, o Itamaraty sinaliza compromisso com a multilateralidade e a resolução pacífica de conflitos internacionais, valores centrais da diplomacia brasileira. Essa abordagem contrasta com a postura mais assertiva e intervencionista adotada por Trump, destacando diferenças de visão sobre como lidar com crises de governança em outros países. O Brasil mantém sua embaixada em Teerã atenta à situação da comunidade brasileira local, garantindo assistência consular se necessário.
A nota do Itamaraty representa, portanto, um esforço para contribuir com a desescalada da tensão no Irã, evitando que pressões externas agravem ainda mais o quadro de instabilidade. Em um contexto global marcado por polarizações e ameaças de uso da força, a insistência brasileira no diálogo pacífico reforça a relevância de vozes moderadoras que defendam a soberania e os direitos fundamentais sem recorrer à coerção ou à ameaça militar, abrindo espaço para que os próprios iranianos encontrem caminhos sustentáveis para superar a atual crise.



