Trilheiro conta o que amiga de Roberto teria feito momentos antes dele desaparecer no Pico Paraná

A trilha até o Pico Paraná, ponto mais alto do Sul do Brasil, costuma ser descrita por quem frequenta a região como um desafio que exige preparo físico, atenção constante e, acima de tudo, companheirismo. Foi justamente esse último aspecto que passou a ser questionado após o desaparecimento de Roberto, ocorrido na madrugada da última quinta-feira (1), durante uma escalada que reunia trilheiros experientes.
Um dos participantes do grupo, o montanhista Fábio, decidiu relatar publicamente o que presenciou horas antes do sumiço. Segundo ele, o comportamento de Thayana, que acompanhava Roberto na subida, chamou atenção desde os primeiros sinais de dificuldade enfrentados pelo jovem. Conforme o grupo avançava pela trilha ainda escura, Roberto começou a demonstrar cansaço além do esperado, algo que não passou despercebido.
Diante da situação, os trilheiros tentaram agir de forma solidária. Fábio contou que ofereceram água, dividiram chocolate e sugeriram que Roberto diminuísse o ritmo para evitar um desgaste maior. A recomendação era simples: seguir com calma, respeitando os limites do corpo e mantendo o grupo unido, como manda a regra básica do montanhismo.
O que veio depois surpreendeu. Ainda de acordo com o relato, Thayana teria se afastado do grupo e seguido sozinha em direção ao cume. “Ela abandonou o grupo e correu na frente”, disse Fábio, visivelmente incomodado ao lembrar do episódio. Ele afirma que tentou alcançá-la para pedir que aguardasse os demais, mas não conseguiu.
A atitude foi considerada inesperada, principalmente por se tratar de uma trilha conhecida por mudanças bruscas de clima, trechos técnicos e histórico de ocorrências anteriores. Fábio relatou que chegou a alertar Thayana de forma direta, ressaltando os riscos de deixar um companheiro debilitado para trás em um ambiente que, embora belíssimo, exige cautela constante.
Mesmo assim, após um breve período no topo do Pico Paraná, Thayana e Roberto optaram por iniciar a descida antes do restante do grupo. A decisão, naquele momento, não parecia fora do comum, mas ganhou outro peso horas depois.
Quando os trilheiros retornaram ao chamado acampamento 1, um ponto de apoio usado por quem faz a travessia, encontraram apenas Thayana na barraca. Roberto não estava lá. Questionada, ela afirmou não saber exatamente onde o amigo se encontrava, dizendo acreditar que ele vinha logo atrás. Foi nesse instante que o clima mudou completamente.
O que antes era uma expedição planejada passou a ser uma situação de urgência. As buscas começaram ainda na trilha, de forma improvisada, com lanternas e chamadas pelo nome de Roberto. Sem sucesso, o Corpo de Bombeiros foi acionado para assumir oficialmente a operação de resgate no Pico Paraná.
Em entrevista posterior, Thayana confirmou que chegou ao acampamento antes de Roberto e manteve a versão de que imaginava que ele desceria em seguida. Enquanto isso, equipes especializadas seguem trabalhando na região, enfrentando terreno íngreme e condições variáveis.
O caso ganhou grande repercussão entre praticantes de montanhismo e também nas redes sociais. Mais do que apontar culpados, muitos destacam a importância do planejamento, da comunicação e do cuidado mútuo em trilhas desse porte. O desaparecimento de Roberto reacende um alerta antigo: na montanha, ninguém caminha sozinho por muito tempo sem correr riscos.



